Concisão e rigor

A Carlos Drummond de Andrade


Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.

Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.


Poema do livro “João Cabral de Melo Neto – Obra completa”, Nova Aguilar – 1994. Para celebrar os 100 anos do nascimento do escritor, poeta e diplomata, acaba de sair, pelo selo Alfaguara, uma nova edição das obras do autor, desta vez das poesias completas.

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