Ilustríssima conversa sobre cartas de Clarice

Cartas de Clarice Lispector têm a autenticidade de sua ficção, diz editor -  07/11/2020 - Ilustríssima - Folha
Foto: Divulgação-Folha/Uol

Está no ar o novo podcast da Folha em parceria com o Itaú Cultural, o Ilustríssima Conversa. Nessa edição o bate-papo é com o editor Pedro Vasquez, da Rocco. A editora lançou, em setembro passado, “Todas as Cartas”, uma nova reunião de correspondências escritas por Clarice Lispector, meia centena delas inédita para o público, segundo a editora. São cartas para amigos como João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga, Otto Lara Resende, Lygia Fagundes Telles e Mário de Andrade. As 284 correspondências foram organizadas por décadas – dos anos 1940 a 1970 – e contam com notas da biógrafa Teresa Montero. Clarice completaria 100 anos no próximo dia 10 de dezembro. Ouça o podcast pelo link (para assinantes): https://omny.fm/shows/ilustr-ssima-conversa/cartas-de-clarice-lispector-t-m-a-autenticidade-de.

As cartas de Clarice

TODAS AS CARTAS

Lançado oficialmente ontem pela Rocco,“Todas as Cartas” é uma reunião de correspondências de Clarice Lispector trocadas ao longo da vida com nomes como João Cabral de Melo Neto, Rubem Braga e Mário de Andrade. São 284 cartas no total, parte delas inéditas. Segundo matéria do Estadão, o livro foi organizado por décadas, dos anos 1940 aos 1970, e recebeu notas da biógrafa Teresa Montero, que contextualizam os fatos. A vasta correspondência da escritora, como lembra a matéria (https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,livro-traz-valiosa-correspondencia-inedita-de-clarice-lispector,70003451632, para assinantes), já inspirou a publicação de outras três obras: “Cartas Perto do Coração”, de 2001, organizada por Fernando Sabino, “Correspondências”, de 2002, e “Minhas Queridas”, de 2007, estabelecidas pela mesma biógrafa Teresa Montero.

Abaixo, trecho de carta de Clarice a João Cabral de Melo Neto, enviada a partir de Berna em 12/2/1949 e publicada pelo Estadão.

“Meu coração bateu de alegria quando vi que você tinha entendido que eu pedia ajuda. Disfarcei como pude o pedido, não por amor-próprio, mas porque, não sei, encabulamento. Ainda me lembro, quando eu era pequena, resolvi um dia me encher de coragem e pedi a uma menina um bracelete que ela usava. Resposta espantada e ofendida: ‘Tá doida, bichinha, isso é de ouro!’ E se você me respondesse assim? porque é de ouro também. Mas, já que você não usou a humilhante fórmula, peço-lhe explicitamente ajuda… A coisa está ruim mesmo. Renovar-se está bem. Mas como? Renovar-se não é sobretudo matéria de vida? então nada. Não, não tenho riqueza nenhuma, não tenho nenhuma escolha. E você não tem pobreza. Só que o que eu ‘invento’ vem cercado de mil bobagens com boa aparência, e o que você ‘inventa’ já é o essencial. Meu luxo é triste, sua pobreza é farta.”

Para Pedro de Moraes

Ipanema Beach, Rene Burri, 1958 / Magnum

O Canto que te Quero Cantar, Pedro meu filho

Pedro, meu filho…

Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai — a insensatez de um co­ração constantemente apaixonado.

E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.

Da mesma forma que eu, muitas noites, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.

E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.

Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo.

E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.

Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.

E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.

Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte.

E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.

Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder.

E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.

Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.

E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:

Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho…

De Vinicius de Moraes – “Para Viver um Grande Amor” / Editora do Autor – Rio de Janeiro – 1962. Publicada no correioims.com.br, do Instituto Moreira Salles.

Elizabeth no Rio

Foto: Enciclopédia Itaú Cultural

 À doutora Anny Bauman

Rio de Janeiro, 2 de maio de 1961

A Lota está dirigindo as obras de um aterro enorme à margem de uma das baías do Rio. O cargo dela é “coordenadora-chefe” – é demais! Alguns dos melhores arquitetos estão trabalhando com ela, e também o Burle Marx, que é o melhor paisagista tropical que há, a meu ver; e como o Rio é uma grande família, pelo menos o mundo intelectual, estas pessoas são todas velhas amigas. Além disso, e infelizmente, existem os departamentos de Parques e Jardins e de Transporte, e generais-de-brigada, e muitos, mas muitos burocratas inertes que é preciso enfrentar, e ciúmes, e politicagens, e mais a Situação da Mulher aqui! A meu ver, a Lota está se saindo muitíssimo bem. Fico admirada sempre que a vejo em atividade, ou quando a ouço falando pelo telefone com essa gente difícil. É muito trabalho; ficamos no Rio de segunda a sexta todas as semanas agora, e a Lota nunca vai se deitar, e o número de “cafezinhos” que ela toma é assombroso.

Foi muito inteligente da parte do Carlos* aproveitar os talentos da Lota finalmente, a meu ver – mas ela se recusaa aceitar um salário (o que talvez seja uma boa idéia para neutralizar certas críticas). Seja como for, o que antes ia ser uns dois quilômetros de pistas nuas cercadas por um parque sem sombra e sem nada de interessante agora vai ter bastante sombra, playgrounds, dois restaurantes, cafés ao ar livre, pistas de dança etc. – se tudo correr bem. A Lota tem mil idéias boas e viáveis.

Claro que isso é muito mais importante que viajar, por ora, de modo que adiamos nossos planos. Por outro lado, a Lota nunca teve tantas preocupações na vida, coitada – mas tenho certeza de que apesar disso ela está muito mais feliz, agora que finalmente tem um trabalho. Vai sair um suplemento dominical sobre o projeto em breve, e se as fotos saírem boas eu lhe mando um exemplar.

Quanto ao meu trabalho, há vários meses que não faço nada, mas acho que estou começando outra vez, finalmente – espero. Este vaivém constante é um transtorno, mas aos poucos a gente está se organizando melhor. Além disso, tivemos problemas terríveis com a criadagem, mas achamos que eles estão mais ou menos resolvidos agora […]

O Carlos está enfrentando com toda a coragem os problemas quase insolúveis da cidade do Rio, e naturalmente já está sendo criticado por seus concidadãos ingratos. Há pessoas muito boas trabalhando com ele (algumas sem receber um tostão, como a Lota), e os cariocas vida mansa estão atônitos com o número de horas que eles trabalham e as medidas diretas que estão tomando. Acho que chega de notícias sobre o Brasil. Nem consigo acreditar que estou tão envolvida com estas coisas, e sei tanto a respeito delas, e é claro que a única coisa que tenho a fazer é escrever uns contos, disto eu sei […]

Onde você vai passar as férias este ano? Eu queria era que um dia você resolvesse passá-las aqui.

Carta da poeta Elizabeth Bishop à sua médica em Nova York e mais tarde amiga íntima e confidente, Anny Bauman.

Fonte: “Uma Arte – As Cartas de Elizabeth Bishop”, Companhia das Letras, 1995

*Carlos Lacerda – Vereador, Deputado Federal, Governador do Estado da Guanabara, de 1960 a 1965, fundador do jornal Tribuna da Imprensa e da Editora Nova Fronteira.

Mário perde a vergonha

Bloco Cordão da Bola Preta na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro, Carnaval de 1959

Carta de Mário de Andrade para Manuel Bandeira, do acervo do Instituto Moreira Salles.

[São Paulo, fevereiro de 1923]

Não me condenes antes que me explique.

Depois perdoarás.

Foi assim. Desde que cheguei ao Rio disse aos amigos: dois dias de carnaval serão meus. Quero estar livre e só. Para gozar e observar. Na segunda-feira, passarei o dia com Manuel, em Petrópolis.  Voltarei à noite para ver os meus afamados cordões.

Meu Manuel… Carnaval!… Perdi o trem, perdi a vergonha, perdi a energia… Perdi tudo. Menos minha faculdade de gozar, de delirar… Fui ordinaríssimo. Além do mais: uma aventura curiosíssima. Desculpa contar-te toda esta pornografia. Mas… Que delícia, Manuel, o carnaval do Rio! Que delícia, principalmente, meu carnaval! Se estivesses aqui, a meu lado, vendo-me o sorriso camarada, meio envergonhado, meio safado com que te escrevo: ririas. Ririas cheio de amizade e de perdão.

Nada me faz esquecer-te. Mas quem falou em esquecimentos e abandonos? Nem tu, tenho certeza disso. Foi leviandade. Criançada, nada mais. Meu cérebro acanhado, brumoso de paulista, por mais que se iluminasse em desvarios, em prodigalidades de sons, luzes, cores, perfumes, pândegas, alegria, que sei lá!, nunca seria capaz de imaginar um carnaval carioca, antes de vê-lo. Foi o que se deu. Imaginei-o paulistamente. Havia um quê de neblina, de ordem, de aristocracia nesse delírio imaginado por mim. Eis que sábado, às 13 horas, desemboco na Avenida. Santo Deus! Será possível!…

Sabes: fiquei enojado. Foi um choque terrível. Tanta vulgaridade. Tanta gritaria. Tanto, tantíssimo ridículo. Acreditei não suportar um dia a funçanata chula, bunda e tupinambá. Cafraria vilíssima, dissaborida. Última análise: “Estupidez”!

Assim julguei depois de dez minutos que não ficaria meia hora na cidade.

Mas, por isso talvez que tanto tenho sofrido dos julgamentos levianos, jurei para mim olhar sempre as coisas com amor e procurar compreendê-las antes de as julgar. Comecei a observar. Comecei a compreender. Uma conversa iluminava-me agora sobre uma ridícula baiana que há pouco vira. A pobreza de uns explicava-me a brincadeira de outros.

Admirei repentinamente o legítimo carnavalesco, o carnavalesco carioca, o que é só carnavalesco, pula e canta e dança quatro dias sem parar. Vi que era um puro! Isso me entonteceu e me extasiou. O carnavalesco legítimo, Manuel, é um puro. Nem lascivo, nem sensual. Nada disso. Canta e dança. Segui um deles uma hora talvez. Um samba num café. Entrei. Outra hora se gastou.

Manuel: sem comprar um lança-perfume, uma rodela de confete, um rolo de serpentina, diverti-me 4 noites inteiras e o que dos dias me sobrou do sono merecido.

E aí está porque não fui visitar-te.

Estou perdoado.

Sei que me perdoarás principalmente quando souberes que até parentes, moradores da rua Dona Mariana, deixei de visitar.

Principalmente quando souberes que tendo perdido tantas coisas no carnaval, não perdi a máquina fotográfica, antes cinematográfica de meu subconsciente. Aqui estou na vida quotidiana. Pois não é que ontem começaram a se revelar fotografias e fotografias dentro de mim! Pois não é que, no écran das folhas brancas, começou a se desenrolar o filme moderníssimo dum poema!

“Carnaval Carioca”. Está saindo. Parece mesmo que estou satisfeito com ele. Será mais ou menos longo. E muito meu. Há um trechinho sobre o destino do poeta, descrevo a dona de minha aventura, rezo, canto, grito… O diabo! O menos jeune fille dos meus poemas. Quando estiver pronto, receberás cópia.

Me basta de carnaval.

Quero agora dizer-te quanto me agradou o carinho e a verdade do teu artigo. És muito bom e muito amigo. Muito obrigado. ­­­– Nem podes imaginar como é grande este “muito obrigado” porque não imaginas o benefício que me fazes. Eu, diretor (ex, porque já chegou o homem que eu substituía) do Conservatório, crítico gritador, homem corajoso, forte… Pura máscara! Puro carnaval! No fundo sou uma criança. Infantil. Titubeio. Duvido. Se não tivesse raiva de mim mesmo, creio que choraria.

O que vocês, rapazes do Rio, fizeram por mim, é coisa que nunca pagarei.

Trago-te comigo.

Até breve.

Até junho ver-nos-emos no Rio? Ou em Petrópolis se ainda lá estiveres.

Dessa vez nenhum carnaval me fará roer a corda.

Até breve, mais uma vez.

MÁRIO