Domingo com o Braga

Rembrandt - Bust of a Bearded Old Man
Bust of a Bearded Old Man – Rembrandt – The Leiden Collection

Desculpem Tocar no Assunto

Vocês desculpem tocar nesse assunto, mas a verdade é que está morrendo muito gente. Outro dia peguei por acaso um antigo caderninho de endereços que estava no fundo de uma gaveta, comecei a folhear e esfriei: quanto telefone de gente que já morreu!

Eu e um amigo estivemos imaginando uma Cidade dos Mortos que funcionasse mais ou menos como esta em que vivemos: uma cidade em que estivessem vivendo os mortos nossos conhecidos, os nossos mortos. Tinha muita gente, e gente ótima; é verdade também que alguns chatos; isso faz parte. Mas havia bons companheiros de praia, bons amigos de bar, excelentes papos. Poucas, raras mulheres de nossa estima; as mulheres, pelo visto, não costumam falecer.

O pior – dizia meu amigo, e eu batia a cabeça tristemente, a concordar -, o pior é que esse “lado de lá” vai aumentando, e se a gente demorar muito por aqui acaba falando sozinho.

Outro dia vi um velho na rua; andava lentamente e movia os lábios, como quem fala para si mesmo. Devia estar conversando com algum amigo morto. A certa altura ficou quieto, com o ar contrariado de quem está ouvindo alguma coisa de que não gosta. Depois recomeçou a falar com mais veemência.

Súbito, calou-se outra vez. O morto estava lhe dizendo poucas, porém boas. Ele tinha o ar ofendido.

O pior dos mortos é que nunca telefonam. Aparecem sem avisar, sentam-se numa poltrona e começam a falar. Tocam em assuntos que já deviam estar esquecidos, e fazem perguntas demais. Subitamente fazem silêncio. Esse silêncio é constrangedor. O morto tem um ar de queixa e ao mesmo tempo um invisível sorriso de superioridade. Outro dia eu perdi a paciência com um:

_ “Está bem, meu caro. Eu sei que V. tem toda razão, e a prova de sua superioridade é que V. já está morto e eu ainda não cheguei a essa fase. Mas você está me gozando e abusando um pouco de sua qualidade de morto. Sei que não devia dizer isso, devia ser mais delicado com você, mas acontece…”

Parei de falar, ele tinha sumido. Não achei isso muito fino de sua parte. Ele devia se abster de um truque assim, que eu, como vivo, não posso usar. Essa ideia não me impedia de ter certo remorso.

O que mais me irritou foi que uns quinze minutos depois ouvi sua risada no ar, perto de minha janela. Não moro em nenhum arranha-céu, apenas em um quinto andar. Mesmo assim já é abuso, um sujeito ficar parado no ar, invisível, ali fora, fingindo que já se foi.

Está visto que era um morto relativamente recente, ainda um pouco novo-rico de sua própria morte. Imagino que todo morto vai ficando um pouco mais discreto à medida que seus amigos e conhecidos também morrem. Quando não resta mais nenhum mesmo na terra é que ele começa a viver sossegado sua vida de morto.

Não tenho nada contra o espiritismo, mas não acredito muito nessa história de sujeitos que baixam em sessões de subúrbio, cem, duzentos anos depois de morrer. Acho que depois de certa idade (idade do falecido) o morto não acredita mais em espiritismo. Considera-o uma impertinência dos vivos.

Tenho poucas mortas. Mas como são queridas! O engraçado é que à medida que o tempo passa elas vão ficando um pouco parecidas, vão-se fazendo irmãs, mesmo as que jamais se conheceram. Aparecem raramente e sempre caçoam um pouco de mim, mas com um jeito de carinho. Não faz mal que não me levem muito a sério; não mereço.

Mas a verdade é que nos piores momentos de minha vida sempre senti uma imponderável mão em minha cabeça; então fecho os olhos e me entrego a esse puro carinho, sem sequer me voltar para ver se é minha mãe, minha irmã ou uma doce, infeliz amiga ou apenas a leve brisa em meus cabelos.

Rio, dezembro, 1957.

Rubem Braga em “Ai de Ti, Copacabana” – Edição 2008 / Record

Olhando as nuvens

Fernand Léger - 340 Artworks, Bio & Shows on Artsy
Fernand Léger

NO MAR

Se soubesse cantar alguma coisa cantaria O Ébrio, de Vicente Celestino. “Tornei-me um ébrio…”

Um grande cansaço pesava em todo o seu corpo, por onde a água escorria. Fechou o chuveiro, começou a se enxugar lentamente. Quando foi se vestir, a porta do armário estava aberta, a que tem o espelho dentro, e ele se viu nu. Achou-se branco, destestavelmente branco como um europeu, sentiu-se meio gordo e mole. Há quanto tempo não tomava um banho de mar!

Odiou, de repente, sua vida de trabalho e de bar, vivida quase toda sob a luz artificial. Tinha mil coisas a fazer na cidade; precisava ir ao escritório daquele sujeito, telefonar para quatro ou cinco pessoas, providenciar aqueles papéis.

O telefone bateu. Ia atender, mas sentiu que se atendesse ficaria preso – preso àquele fio negro, aos compromissos, às salas dos edifícios do centro, à vida de todo dia. O telefone ainda tocava quando ele saiu. O sol era leve. Comprou três mexericas, saltou para a praia, esticou-se se na areia, de bruços, os olhos dobre um braço, recebendo nas costas o calor do sol. Dentro de sua cabeça ainda giravam conversas e músicas da madrugada, rostos de mulheres, encrencas de negócios.

Quando se levantou e começou a andar pela praia, teve a impressão de que, sob um guarda-sol colorido, estava um casal conhecido. Passou longe; não queria encontrar ninguém, tinha um certo pudor de seu corpo assim branco pesado, sem graça. Foi andando e sentindo prazer em andar ao sol, em encher os pulmões de vento de mar. Num trecho de praia deserto teve vontade de fazer ginástica; mas se deixou ir andando a chapinhar, como menino, pela água cheia de espumas.

Foi quando parou, e ficou olhando as espumas, enquanto a marola se retirava, levando um pouco de areia sob os seus pés, e sentiu uma leve tontura, e teve consciência de como se afastara do mar, de como se fizera estranho ao mar, de como se esquecera do mar, como quem se esquece de um grande amigo ou de grande um cão querido, de uma pátria idolatrada, de uma mulher amada. Foi avançando devagar; recebeu no peito, depois na cara, os primeiros borrifos de espuma e, como sentisse frio, deu mais alguns passos depressa, para poder mergulhar. Teve prazer em beber um pouco de água salgada, depois em receber no corpo uma lambada de onda mais forte. Avançou ainda, passou a arrebentação, começou a nadar para fora; depois se voltou de costas, ficou boiando. Olhava duas nuvens brancas no céu muito azul. Era como se fossem as mesmas nuvens de vinte anos atrás, de trinta anos atrás, no mesmo céu da infância – e tudo o que tinha acontecido depois fora escuro e sem sentido, os homens com quem lidara, as mulheres que amara, e as brigas e tristezas – tudo era remoto e absurdo como um pesadelo em um túnel. As nuvens se moviam devagar. Sentiu que seu corpo ia afundando, moveu levemente os pés, sentia o sol quente na cara molhada.

Quando começou a nadar para voltar à terra, percebeu que uma forte corrente o puxava para fora, com uma força invencível, e que os músculos de seus braços doíam de fadiga. Debateu-se ainda, algum tempo, com uma súbita raiva de animal que não quer morrer, e a água abafou o seu grito rouco. Pensou confusamente que deixara as três mexericas na praia, e o telefone tocando no apartamento. Longe, no horizonte, passava um vapor.

Rubem Braga – Rio, abril de 1952 – Do livro “A Borboleta Amarela”, Record/1982

Clarice pede pressa aos cientistas

VÍDEO: a Via-Láctea vista do Atacama, o céu "mais escuro e nítido da Terra"  | GaúchaZH

COSMONAUTA NA TERRA

Extremamente atrasada, reflito sobre os cosmonautas. Ou melhor, sobre o primeiro cosmonauta. Quase um dia depois de Gagarin, nossos sentimentos já estavam atrasados em contraposição à velocidade com que o acontecimento nos ultrapassava. Agora, então, é atrasadíssima que repenso no assunto. É um assunto difícil de se sentir.

Um dia desses um menino, advertido de que a bola com que brincava cairia no chão e amolaria os vizinhos de baixo, respondeu: ora, o mundo já é automático, quando uma mão joga a bola no ar, a outra já é automática e pega-a, não cai não.

A questão é que nossa mão ainda não é bastante automática. Foi com susto que Gagarin subiu, pois se o automático do mundo não funcionasse a bola viria mais do que transtornar os vizinhos de baixo. E foi com susto que minha mão pouco automática tremeu à possibilidade de não ser rápida o bastante e deixar o “acontecimento cosmonauta” me escapar. A responsabilidade de sentir foi grande, a responsabilidade de não deixar cair a bolaque nos jogaram.

A necessidade de tornar tudo um pouco mais lógico – o que de algum modo equivale ao automático – me faz tentar criteriosamente o bom susto que me pegou:

-De agora em diante, me referindo à Terra, não direi mais indiscriminadamente “o mundo”. “Mapa mundial”, considerarei expressão não apropriada; quando eu disser “o meu mundo”, me lembrarei com um susto de alegria que também me mapa precisa ser refundido, e que ninguém me garante que, visto de fora, o meu mundo não seja azul. Considerações: antes do primeiro cosmonauta, estaria certo alguém dizer, referindo-se ao próprio nascimento, “vim ao mundo”. Mas só há pouco tempo nascemos para o mundo. Quase encabulados.

-Para vermos o azul, olhamos para o céu. A Terra é azul para quem a olha do céu. Azul será uma cor em si, ou uma questão de distância? Ou uma questão de grande nostalgia? O inalcançável é sempre azul.

-Se eu fosse o primeiro astronauta, minha alegria só se renovaria quando um segundo homem voltasse lá do mundo: pois também ele vira. Porque “ter visto” não é substituível por nenhuma descrição: ter visto só se compara a ter visto. Até um outro ser humano ter visto também, eu teria dentro de mim um grande silêncio, mesmo que falasse. Consideração: suponho a hipótese de alguém no mundo já ter visto Deus. E nunca ter dito uma palavra. Pois, se nenhum outro viu, é inútil dizer.

-O grande favor do acaso: estarmos ainda vivos quando o mundo começou. Quanto ao que vem: precisamos fumar menos, cuidar mais de nós, para termos mais tempo e viver e ver um pouco mais; além de pedirmos pressa ao cientistas – pois nosso tempo pessoal urge.

Clarice Lispector – “Todas as Crônicas” – Rocco Digital

Nem tudo está perdido

Jardim botânico rio de janeiro | Foto Premium
Jardim Botânico do RJ/Freepik

FLOR DE MAIO

Entre tantas notícias de jornal – o crime do Sacopã, o disco voador de Bagé , o andaime que caiu, o homem que matou outro com machado e com foice, o possível aumento do pão, a angústia dos Barnabés – há uma pequena nota de três linhas, que nem todos os jornais publicaram.

Não vem do gabinete do prefeito para explicar a falta d’água, nem do Ministério da Guerra para insinuar que o país está em paz. Não conta incidentes de fronteira nem desastre de avião. É assinada pelo senhor diretor do Jardim Botânico, e nos informa gravemente que a partir do dia 27 vale a pena visitar o Jardim, porque a planta chamada “flor de maio” está, efetivamente, em flor.

Meu primeiro movimento, ao ler esse delicado convite, foi deixar a mesa da redação e me dirigir ao Jardim Botânico, contemplar a flor e cumprimentar a administração do horto pelo feliz evento. Mas havia ainda muita coisa para ler e escrever, telefonemas a dar, providências a tomar. Agora, já desce a noite, e as plantas em flor devem ser vistas pela manhã ou à tarde, quando há sol – ou mesmo quando a chuva as despenca e elas soluçam no vento, e choram gotas e flores no chão.

Suspiro e digo comigo mesmo – que amanhã acordarei cedo e irei. Digo, mas não acredito, ou pelo menos desconfio que esse impulso que tive ao ler a notícia ficará no que foi – um impulso de fazer uma coisa boa e simples, que se perde no meio da pressa e da inquietação dos minutos que voam. Qualquer uma destas tardes é possível que me dê vontade real, imperiosa, de ir ao Jardim Botânico, mas então será tarde, não haverá mais “flor de maio”, e então pensarei que é preciso esperar a vinda de outro outono e no outro outono posso estar em outra cidade em que não haja outono em maio, e sem outono em maio não sei se em alguma cidade haverá essa “flor de maio”.

No fundo, a minha secreta esperança é de que estas linhas sejam lidas por alguém – uma pessoa melhor que eu, alguma criatura correta e simples que tire desta crônica a sua única substância, a informação precisa e preciosa: do dia 27 em diante as “flores de maio” do Jardim Botânico estão gloriosamente em flor. E que utilize essa informação saindo de casa e indo diretamente ao Jardim Botânico ver a “flor de maio” – talvez com a mulher e as crianças, talvez com a namorada, talvez só.

Ir só, no fim da tarde, ver a “flor de maio”, aproveitar a única notícia boa de um dia inteiro de jornal, fazer a coisa mais bela e emocionante de um dia inteiro da cidade imensa. Se entre vós houver essa criatura, e ela souber por mim a notícia, e for, então eu vos direi que nem tudo está perdido, e que vale a pena viver entre tantos sacopãs de paixões desgraçadas e tantas cofaps de preços irritantes; que a humanidade possivelmente ainda poderá ser salva, e que às vezes ainda vale a pena escrever uma crônica.

Rubem Braga

Rio, maio de 1952

Loyola e Buzzati na pandemia

Foto: lavocedelserchio.it

Certa manhã em Pisa, Itália

Ignácio de Loyola Brandão

Aproveitando o confinamento, estou há semanas tentando arrumar minha biblioteca que virou Babel, sem ser a de Borges. Ficava constrangido quando visitas olhavam para tudo e, educados, nada diziam. Fiquei aliviado quando vi nos jornais a biblioteca do Aldir Blanc, bagunça memorável, montes de livros empilhados, papéis, caixas, objetos. Do meio daquela mixórdia, todavia, saíram algumas das mais belas letras da música popular brasileira, comoventes, ríspidas. Mexo que mexo e do remelexo saiu um livrinho de capa marrom, levemente roída pelas traças. Ao ver aquele exemplar da segunda edição italiana de Un Amore, romance de Dino Buzzati, edição da Bompiani, Lucía Curia surgiu dentro do meu confinamento. Ao pronunciar seu nome, acentue o i, ela fazia questão. 

Gaúcha bela e sensual, seu nome inicial era Lucía Regina Tomasina Curia. Nos anos em que foi a mais bela e descolada e diferenciada modelo de moda, era apenas Lucía, eventualmente Curia. Mais tarde casou-se com o banqueiro milionário, diplomata e colecionador Walther Moreira Salles, do grand monde do universo, e tornou-se Lucia Moreira Salles, que ela abreviava para LMS. Assim, subitamente na manhã paulistana, nos vimos juntos em uma livraria de Pisa, Itália, em certa manhã de 1963. 

Era uma folga da caravana da moda brasileira da Rhodia, que andava pelo mundo fazendo desfiles com tecidos desenhados por artistas plásticos como Di Cavalcanti, Juarez Machado, Volpi, Darcy Penteado, Aldemir Martins, Carybé (argentino naturalizado baiano). Na noite anterior, tínhamos estado no Festival dos Dois Mundos, em Spoletto, e, quando Lucía atravessou a passarela, ouvi os aplausos de Luchino Visconti, esse mesmo, o diretor de Rocco e Seus Irmãos, Vagas Estrelas da Ursa, O Estrangeiro (baseado em Albert Camus), Morte em Veneza, O Leopardo, Senso, Os Deuses Malditos. Ele estava na minha frente. Tinha olho para as grandes coisas. 

Foi Lucía quem, no café da manhã no hotel, me puxou e lá fomos, com o cineasta Fernando de Barros e o músico Sergio Mendes, para uma livraria, cada um em busca do seus interesses. Eu morava em Roma, na época, e me chamaram, acompanhava o grupo para fazer o texto de um documentário que seria exibido no Brasil. Em Roma, conheci Luis Carta que se tornaria amigo e grande amigo no futuro. Quando Thomas Soto Correa me levou para a Claudia, fiz um exame psicotécnico. Fui reprovado e Luis e Thomaz me contrataram assim mesmo, fiquei sete anos lá. 

De sete em sete, vim mudando de publicação. Na pequena, mas bem abastecida livrariazinha, eu estava fascinado com o roteiro do filme Oito e Meio, de Fellini, edição da Rizoli, quando Lucía me trouxe um livrinho. Vi o título, Un Amore. Cara irônica, ela era sempre pura malícia, me perguntou: “Conhece Buzzati?”. Disse que não, ela me entregou e esclareceu: “Comprei para você, ele é mais ou menos seu gênero, é jornalista, arredio, caladão, mas um belo escritor. Você não diz que vai escrever livros?”. Meu primeiro livro sairia dois anos depois. Naquele momento, pelas mãos daquela modelo, fiz a descoberta de um de meus autores favoritos. 

Acompanhei a carreira dele, o sucesso de O Deserto dos Tártaros, Um Amor e de O Segredo do Bosque Velho (circula no Brasil a versão portuguesa editada pela Cavalo de Ferro) e seus contos, peças teatrais, seus poemas. Morto em 1972, aos 66 anos, Buzzati foi contista, poeta, artista plástico, e seu mundo cheio de alegorias e beirando o fantástico forneceu faíscas em livros meus como Cadeiras Proibidas e mesmo Não Verás País Nenhum e Desta Terra Nada Vai Sobrar… Buzzati participou de uma geração italiana brilhante que teve nomes como Moravia, Pavese, Bassani, Natalia Ginsburg, Brancatti, Bonaviri, Silone, Vittorini, Elsa Morante. 

A maioria teve suas obras adaptadas para o cinema, foram grandes filmes nas décadas de 1960 e 1970. Tenho uma edição brasileira de Un Amore, editada pela Nova Fronteira, tradução de Tizziana Giorgini. História do amor de Antonio Dorigo, um cinquentão, por uma prostituta, o livro causou furor e escândalo na época de seu lançamentos na Itália. Foi filme em 1965, com Agnés Spaak, filha do célebre roteirista Charles Spaak, autor de A Grande Ilusão, clássico de Jean Renoir, de 1937.

Lucía, que falava três línguas, sempre foi uma modelo diferenciada no mundo da moda brasileira. Pioneira de novas mentalidades e maneira de encarar e estruturar a carreira, embrião de Gisele Bündchen. Depois de desfilar para Dener, estilista must dos anos 1960, Lucía instalou-se em Paris, e tornou-se o braço direito de Chanel. Valentino adorava vê-la na passarela. Enfim, casou-se com Walther Moreira Salles. Viúva, desde 2001, pouco antes de morrer, aos 70 anos, ela produziu/patrocinou uma edição fac-similar preciosa, A Portrait of Oscar Wilde, com cartas, contos e poemas do autor de O Retrato de Dorian Gray. Moreira Salles tinha os originais em seus arquivos. Feito com um cuidado especial – as 185 páginas são costuradas à mão e encadernadas na Itália pela Legatoria Rigoldi, de Milão. Preciosidade para bibliófilos que foi celebrada nos meios literários dos Estados Unidos e da Inglaterra. Tudo isso me veio à mente saindo do montículo de livros empoeirados, esquecidos. Releio Buzzati. 

O Estado de S. Paulo, 03/07/2020