Carlos ouve Luís

BEETHOVEN

Meu caro Luís, que vens fazer nesta hora

de antimúsica pelo mundo afora?

Patética, heroica, pastoral ou trágica,

tua voz é sempre um grito modulado,

um caminho lunar conduzindo à alegria

Ao não-rumor tiraste a percepção mais íntima

do coração da Terra, que era o teu.

Urso-maior uivando a solidão

aberta em cântico: entre mulheres

passando sem amor. Meu rude Luís,

tua imagem assusta na parede,

em medalhão soturno sobre o piano.

Que tempestade passou em ti e continua

a devastar-te no limite

em que a própria morte exausta se socorre

da vida, e reinstala

o homem na fatalidade de ser homem?

Nós, os surdos, não captamos

o amor doado em sinfonia, a paz

em alegro energico sobre o caos,

que nos ofertas do fundo

do teu mundo clausurado.

Nós, computadores, não programamos

a exaltação romântica filtrada

em sonatino adágio murmurante.

Nós, guerreiros nucleares, não isolamos

o núcleo de paixão de onde se espraia

pela praia infinita essa abstrata

superação do tempo e do destino

que é razão de viver, razão florente

e grave.

Tanto mais liberto quanto mais

em tua concha não acústica encerrado,

livre da corte, da contingência, do barroco,

erguendo o sentimento à culminância

da divina explosão, que purifica

o resíduo mortal, a angústia mísera,

que vens fazer, do longe de dois séculos,

escuro Luís, Luís luminoso

em nosso tempo de compromisso e omisso?

Do fogo em que queimaste,

Uma faísca resta para incendiar

corações maconhados, sonolentos,

servos da alienação e da aparência?

Quem comporá a Apassionata do nosso tempo,

quem removerá as cinzas, despertará a brasa,

quem reinventará o amor, as penas de amor,

quem sacudirá os homens do seu torpor?

Boto no pick-up o teu mar de música,

Nele me afogo acima das estrelas.

Carlos Drummond de Andrade, em “As Impurezas do Branco”.

Villa-Lobos ganha nova biografia

Villa-Lobos e a mulher Arminda desembarcando no Galeão/Foto: Museu Villa-Lobos

Sai no ano que vem uma nova biografia do compositor e maestro Heitor Villa-Lobos (1887-1959), aclamado como um dos maiores nomes da música clássica brasileira em todos os tempos. O livro tem autoria do músico, pesquisador e escritor Wilson Baptista e, traz, segundo entrevista do autor para o blog da editora Companhia das Letras, novidades como uma genealogia inédita de Villa e outras revelações relativas às viagens de mocidade do compositor.

Filho de uma dona de casa e de um funcionário da Biblioteca Nacional e músico amador, Villa-Lobos aprendeu com o pai Raul Villa-Lobos a tocar clarinete e violoncelo a partir dos seis anos. Aos 18, partia em viagens pelo país, visitando estados como o Espírito Santo, Bahia e Pernambuco, onde passa temporadas em engenhos e fazendas do interior em busca do folclore local. No início da década de 20, já celebrado no Brasil, o músico vai pela primeira vez à Europa, onde retornaria em celebradas turnês nos anos seguintes. Villa morreu de câncer, há 60 anos, no Rio de Janeiro.

Música e poesia para Orfeu

Na mitologia grega, ele era poeta e médico, filho da musa Calíope e de Apolo ou Éagro, rei da Trácia. “Era o poeta mais talentoso que já viveu. Quando tocava sua lira que seu pai lhe deu, os pássaros paravam de voar para escutar e os animais selvagens perdiam o medo. As árvores se curvavam para pegar os sons no vento.”

Orfeu na obra do compositor alemão Christoph Willibald Gluck (1714-1787) – executada pelo pianista brasileiro Nelson Freire – e nos versos de Olavo Bilac (1865-1918).

A Morte de Orfeu

“Em vão as bacantes da Trácia procuram
consolá-lo. Mas Orfeu, fiel ao amor de
Eurídice, encarcerada no Averno, repeliu
o amor de todas as outras mulheres.
E estas, despeitadas, esquartejaram-no.”
Houve gemidos no Ebro* e no arvoredo,
Horror nas feras, pranto no rochedo;
E fugiras as Mênadas**, de medo,
Espantadas da própria maldição.

Luz da Grécia, pontífice de Apolo,
Orfeu, despedaçada a lira ao colo,
A carne rota ensangüentando o solo,
Tombou… E abriu-se em músicas o chão…

A boca ansiosa em nome disse, um grito,
Rolando em beijos pelo nome dito;
“Eurídice”, e expirou… Assim Orfeu,

No último canto, no supremo brado,
Pelo ódio das mulheres trucidado,
Chorando o amor de uma mulher, morreu…

 

*Um dos maiores rios da Península Ibérica.

**Ninfas seguidoras do culto de Dioniso (ou Baco, na mitologia romana). Eram conhecidas como selvagens e endoidecidas, de quem não se conseguia um raciocínio claro.