As flores de Baudelaire

Esta imagem possuí um atributo alt vazio; O nome do arquivo é laurett.jpg
Laurette with a Cup of Coffee – Henri Matisse – 1916–17

PERFUME EXÓTICO

Quando, cerrando os olhos, numa noite ardente,

Respiro a fundo o odor dos teus seios fogosos,

Vejo abrirem-se ao longe litorais radiosos

Tingidos por um sol monótono e dolente,

Uma ilha preguiçosa que nos traz à mente

Estranhas árvores e frutos saborosos;

Homens de corpos nus, esguios, vigorosos,

Mulheres cujo olhar faísca à nossa frente.

Guiado por teu perfume a tais paisagens belas,

Vejo um porto a ondular de mastros e de velas

Talvez exaustos de afrontar os vergalhões,

Enquanto o verde aroma dos tamarineiros,

Que à beira-mar circula e inunda-me os pulmões,

Confunde-se em minha alma à voz dos marinheiros.

PARFUM EXOTIQUE

Quand, les deux yeux fermés, en un soir chaud d’automne,

Je respire l’odeur de ton sein chaleureux,

Je vois se dévouler des rivagess heureux

Qu’eblouissent le feux d’un soleil monotone;

Une île paresseuse où la nature donne

Des arbres singuliers et des fruits savoureux;

Des hommes dont le corps est mince et vigoureux;

Et des femmes dont l’oeil par sa franchise étonne.

Guidé par ton adeur vers de charmants climats,

Je vois un port rempli de voiles et de mâts

Encor tout fatigués par la vague marine,

Pendant que le parfum des verts tamariniers,

Qui circule dans l’ait et m’enfle la narine,

Se mêle dans mon âme au chant des mariniers.

Poema XXII da série Spleen e Ideal, do livro “As Flores do Mal”, de Charles Baudelaire, em edição da Nova Fronteira e tradução de Ivan Junqueira.

O soldado dorme

Dora Longo Bahia
Farsa – Manet (A execução de soldados do EIIL), 2014, da artista multimídia Dora Longo Bahia.

ADORMECIDO NO VALE

Arthur Rimbaud

É um vão de verdura onde um riacho canta
A espalhar pelas ervas farrapos de prata
Como se delirasse, e o sol da montanha
Num espumar de raios seu clarão desata.

Jovem soldado, boca aberta, a testa nua,
Banhando a nuca em frescas águas azuis,
Dorme estendido e ali sobre a relva flutua,
Frágil, no leito verde onde chove luz.

Com os pés entre os lírios, sorri mansamente
Como sorri no sono um menino doente.
Embala-o, natureza, aquece-o, ele tem frio.

E já não sente o odor das flores, o macio
Da relva. Adormecido, a mão sobre o peito,
Tem dois furos vermelhos do lado direito.

Tradução: Ferreira Gullar

LE DORMEUR DU VAL

C’est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent; où le soleil, de la montagne fière,
Luit: c’est un petit val qui mousse de rayons.

Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort; il est étendu dans l’herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.

Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme:
Nature, berce-le chaudement: il a froid.

Les parfums ne font pas frissonner sa narine;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.

Paroles de Prévert

jprev

Jacques Prévert (1900-1977), nascido em Neuilly-sur-Seine, foi um poeta, roteirista e letrista muito popular na França. Em 1925 participou do movimento surrealista ao lado de Marcel Duhamel, Raymond Queneau e Yves Tanguy e escreveu o roteiro de vários filmes considerados obras-primas do realismo francês – Hotel du Nord e Les Enfants du Paradis, entre eles. Sua primeira coletânea de poesias, “Paroles”, foi publicada em 1946.

O discurso sobre a paz

No final de um discurso extremamente importante
o grande homem de Estado, estrebuchante
com uma bela frase furada
fica hesitante
e desampara a bocarra escancarada
resfolegante
mostra os dentes
e a cárie dentária de seu raciocínio pacificante
deixa exposto o nervo da guerra
a delicada questão do montante.

Le discours sur la paix

Vers la fin d’un discours extrêmement important
le grand homme d’Etat trébuchant
sur une belle phrase creuse
tombe dedans
et désemparé la bouche grande ouverte
haletant
montre les dents
et la carie dentaire de ses pacifiques raisonnements
met à vif le nerf de la guerre
la délicate question d’argent.

A lua de Baudelaire

3881e762fca7093c9d95b3901b0d1de17f9ac300
Charles Baudelaire – 1849 por Gustave Courbet

Tristezas da lua

Divaga em meio à noite a lua preguiçosa;
Como uma bela, entre coxins e devaneios,
Que afaga com a mão discreta e vaporosa,
Antes de adormecer, o contorno dos seios.

No dorso de cetim das tenras avalanchas,
Morrendo, ela se entrega a longos estertores,
E os olhos vai pousando sobre as níveas manchas
Que no azul desabrocham como estranhas flores.

Se às vezes neste globo, ébria de ócio e prazer,
Deixa ela uma furtiva lágrima escorrer,
Um poeta caridoso, ao sono pouco afeito,

No côncavo das mãos toma essa gota rala,
De irisados reflexos como um grão de opala,
E bem longe do sol a acolhe no seu peito.

 

Tristesses de la lune

Ce soir, la lune rêve avec plus de paresse ;
Ainsi qu’une beauté, sur de nombreux coussins,
Qui d’une main distraite et légère caresse
Avant de s’endormir le contour de ses seins,

Sur le dos satiné des molles avalanches,
Mourante, elle se livre aux longues pâmoisons,
Et promène ses yeux sur les visions blanches
Qui montent dans l’azur comme des floraisons.

Quand parfois sur ce globe, en sa langueur oisive,
Elle laisse filer une larme furtive,
Un poète pieux, ennemi du sommeil,

Dans le creux de sa main prend cette larme pâle,
Aux reflets irisés comme un fragment d’opale,
Et la met dans son coeur loin des yeux du soleil.

 

 Charles Baudelaire – 1821 – 1867